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domingo, 27 de março de 2011

Por que deveríamos ter uma alta dose de techno-otimismo?

"Uma nova geração de artistas vai escrever genomas com a fluência com que Blake e Byron escreveram versos." -- Freeman Dyson  (imagem: "A Escada de Jacó", de Blake)

Trecho de artigo do venezuelano Jason Silva em que ele apresenta algumas das idéias que pretende explorar em seu futuro filme "Turning into Gods".

Why We Could All Use a Heavy Dose of Techno-optimism
("Por que deveríamos ter uma alta dose de techno-otimismo?")
Publicado originalmente no Vanity Fair
JASON SILVA

Em uma recente conferência do TED, um jantar foi organizado pela Fundação Edge, um think tank sem fins lucrativos que celebra as grandes idéias. O tema da noite foi a "Nova Era da Maravilha", e a discussão atraiu comparações com a Era Romântica, o período entre 1770 e 1830, quando a ciência ea arte eram amigas. Foi um tempo em que os astrônomos e poetas foram, de certa forma indistinguíveis, assim como artistas eram inspirados pela ciência por um senso inebriante de respeito e admiração. Em algum lugar abaixo da linha, no entanto, esses dois mundos tornaram-se incoerentes.

Talvez até agora. Estamos à beira de uma revolução bio/nanotecnológica/inteligência artificial que vai abrir novos mundos de exploração. E devemos abrir nossas mentes para a ilimitadas e e alucinantes possibilidades.
De acordo com o físico e escritor Freeman Dyson, nesta Nova Era da Maravilha "uma nova geração de artistas vai escrever genomas com a fluência com que Blake e Byron escreveram versos." Leve isso em conta por apenas um minuto: ele está dizendo que nós estaremos aplicando o nosso talento criativo para o tecido do que somos.
Aqui estão algumas previsões do que poderíamos ver:

• As lentes de contato como computadores. As lentes terão L.E.D. circuitos com reconhecimento de padrões e ligação à Internet de alta velocidade, cujos resultados irão sobrepor ao mundo digital na parte superior do mundo real, criando uma realidade aumentada. Basicamente, isto significa que as lentes podem fazer um computador invisível aparecer bem na sua frente.

• A cura da morte. O biogerontologista Aubrey de Grey viaja pelo mundo promovendo a investigação de novas terapias de rejuvenescimento para fazer todos nós possamos viver 1.000 anos. Ele acredita que o envelhecimento é simplesmente uma doença que não tem cura e que rouba 100 mil de pessoas por dia suas vidas, amores e vitalidade. Ele chama SENS sua pesquisa: Estratégias para Engenharia de Senescência Mínima. (Eu explorei essa idéia em meu filme The Immortalists.).

• Projetar cérebros humanos. O autor best-seller, futurista e inventor Ray Kurzweil diz que estamos a menos de três décadas de distância da engenharia reversa do cérebro humano em um computador capaz de criar uma inteligência mais inteligentes que a de humanos (A IBM espera fazer engenharia reversa do cérebro humano até 2030.) Kurzweil defende que, então, iremos nos fundir com esta inteligência e tornarmo-nos pós-biológicos, ou seja, ainda seremos humanos, mas melhorados. Nesse ponto, nós vamos simplesmente fazer back up de nossas mentes do mesmo jeito que fazemos backup de fotos digitais, eventualmente mudando nossa consciência para a Internet. 

A cura para todas as doenças. Nanorobôs médicos do tamanho de hemácias farão engenharia reversa de nossa bioquímica para que nunca fiquemos doentes.

Há outros atualmente empurrando os limites do que é possível fazer --- mavericks inaugurando o que é dito ser uma era de computadores e da biologia e um retorno à maravilha. Alguns poderiam dizer que estamos mexendo com forças que não entendemos completamente. Mas eu afirmo que a evolução destas tecnologias são precisamente o que significa ser humano: a nossa história é marcada por uma curiosidade implacável e nossa incrível capacidade de transcender os limites do que é considerado possível.

Nós somos a primeira espécie que cria tecnologia. Usamos a tecnologia para ampliar o nosso alcance. Nós não ficamos nas cavernas, e não estamos nos limitando ao planeta. Para tocar jazz com nossos genomas e o universo pode vir a ser o que nós somos. O biólogo Edward O. Wilson estava certo quando disse: "Nós desativamos a seleção natural ... a força que nos fez assim... temos de olhar profundamente dentro de nós mesmos e decidir o que desejamos nos tornar." (ou, como o autor de ficção científica britânico, inventor e futurista Arthur C. Clarke disse, "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da mágica.")

Se o processo da vida é sobre se mover para uma maior complexidade e organização, uma espécie de sublime desdobramento de sistemas cada vez maior de auto-organização, então estamos realmente fazendo muito bem. Certamente existem desafios pela frente, mas há também potencial para profunda grandeza. O Grande Colisor de Hadrons é apenas o exemplo mais recente dos feitos magníficos da humanidade.

Nós não devemos ter medo de empurrar os limites, em vez disso, devemos alavancar nossa ciência e nossa tecnologia, juntamente com nossa criatividade e nossa curiosidade, para resolver os problemas do mundo. Talvez Stewart Brand estava certo: "Somos como deuses e poderiamos ser bom nisso." Afinal, mais poder acarreta mais responsabilidade. 

Assista ao vídeo de Jason sobre o filme que pretende fazer: http://vimeo.com/10939144


MARCELO GLEISER Quem teme a Singularidade?

Um bom artigo do famoso físico Marcelo Gleiser na Folha de S. Paulo de hoje sobre a singularidade e o documentário "Trancendent Man" (o assunto tem ganhado crescente espaço na mídia desde 2009). Gleiser evita o clichê pseudo-cult de criticar a ideia sem apresentar fundamentos consistentes, apenas porque ela parece fantástica. E faz uma declaração corajosa: "Kurzweil não é nem bobo nem louco. Apesar de ter vários críticos, é um inventor reconhecido, vencedor de vários prêmios. (...) Será que devemos levar isso a sério? Sim, devemos. Apesar de várias questões (a extrapolação de Kurzweil é baseada em dados passados; não há garantia que funcionará no futuro), nossa simbiose com as máquinas de silício é cada vez maior."
Trechos do artigo abaixo. O assinante da Folha e do UOL pode ler o texto completo aqui.


MARCELO GLEISER

Quem teme a Singularidade? 


A crença na imortalidade por meio das máquinas lembra outra muito antiga, no triunfo da alma humana


VOCÊ ESTÁ preparado para virar um deus? "A Singularidade Está Próxima" é um documentário dirigido por Anthony Waller e codirigido pelo famoso inventor e autor Ray Kurzweil. No Brasil, existe a tradução do seu "A Era das Máquinas Espirituais", pela editora Aleph. Eis a sinopse do filme:
"No século 21, nossa espécie vai se libertar do seu legado genético e atingirá um nível inimaginável de inteligência, progresso material e longevidade; consequentemente, a definição de "ser humano" será enriquecida e transformada. O celebrado futurista Ray Kurzweil apresenta uma visão que é a culminação dramática de séculos de desenvolvimento tecnológico e que transformará o nosso destino". 
De acordo com Kurzweil, o avanço tecnológico e, em particular, o avanço na velocidade de processamento e de memória de dados, é tão rápido que em breve atingiremos um ponto no qual máquinas serão capazes de superar o cérebro humano. Ele prevê que a humanidade atingirá um ponto final, a "Singularidade". De lá em diante, algo novo e imprevisível, talvez um híbrido de máquina e humano, talvez apenas máquina, existirá, matéria inanimada imitando a vida em estado de animação virtual. 
A esperança de Kurzweil e outros entusiastas da Singularidade é que velocidades altas de processamento, mais o acesso ilimitado a dados, podem simular o cérebro: máquinas com altíssima complexidade computacional podem criar uma ultrainteligência emergente. Humanos, preparem-se, pois o seu fim está próximo! E a data foi marcada para 2045.
(...)

MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA), e autor do livro "Criação Imperfeita"


 * * *
 
PARA SE APROFUNDAR
Quem quiser se aprofundar sobre a plausibilidade científica e filosófica da singularidade tecnológica:
- A plausibilidade científica e a questão cronológica (quanto tempo demorará?) da singularidade:
BOSTROM, Nick. How long before a superintelligence?
- A plausibilidade da ideia e consequências filosóficas da singularidade:
CHALMERS, David (2010). The Singularity: A Philosophical Analysis (texto denso)

Frase interessante de Mihaly Csikszentmihaly

"Eu acho que a criatividade tecnológica que foi descrita certamente vai continuar e florescer, mas eu não estou certo de que seja a mais importante forma de criatividade que nós precisaremos no futuro, que tem a ver com encontrarmos nosso lugar e desenvolvermos o cosmo e tentar encontrar um jeito de vivermos juntos, respeitar um ao outro e não termos a necessidade de destruir qualquer coisa a fim de nos sentirmos bem com nós mesmos."

Mihaly Csikszentmihaly (em participação no programa Closer to Truth, episódio "What's Creativity and Who's Creative?" -- em inglês -- do qual, inclusive, participou Ray Kurzweil)

domingo, 20 de março de 2011

Robôs ganham licitações e preocupam empresários

Da Folha de S. Paulo (assinantes da Folha ou do UOL podem ler a notícia completa aqui).



                                 São Paulo, domingo, 20 de março de 2011 



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Robôs ganham licitações e preocupam empresários

Lance automático em pregões do governo exclui quem não tem o software

Paula Giolito/Folhapress

O empresário Henrique Dendrih, que tem nas vendas para o governo 70% de seu faturamento médio, se diz prejudicado 

MARCOS DE VASCONCELLOS
DE SÃO PAULO 

Programas de computador usados para dar lances automáticos em pregões públicos eletrônicos, realizados na internet, estão causando problemas para empresários em compras governamentais.
Também chamados de robôs, os softwares são vendidos por preços que vão de R$ 1.400 a R$ 5.500 e garantem o primeiro lugar na disputa.
A cada oferta dada por um concorrente, os robôs dão lances mais baixos em menos de um segundo -uma pessoa demora seis segundos- até o encerramento do pregão ou até o limite de preço definido pelo usuário. (...)

Próximo Texto: Legalidade de robô é polêmica

O que faz a vida valer a pena?


Mihaly Csikszentmihalyi pergunta, "O que faz a vida valer a pena?". Observando que o dinheiro não traz felicidade, ele analisa aqueles que encontram prazer e satisfação duradoura em atividades que levam ao estado de "Flow".

Vale a pena recomendar e tuitar esta palestra.

sábado, 19 de março de 2011

O ano em que o homem se tornará imortal e diferença entre transhumanistas e singularitarianos


2045: O ano em que o homem se tornará imortal

"Há espaço dentro do singularitarianismo para considerável diversidade de opinião sobre o que significa a Singularidade, quando e como ela vai ou não acontecer. Mas singularitarianos compartilham uma visão de mundo. Eles pensam em termos de tempo profundo, eles acreditam no poder da tecnologia de moldar a história, eles têm pouco interesse na sabedoria convencional sobre qualquer coisa, e eles não  acreditam que você pode andar por aí e levar sua vida normalmente, assistindo TV, como se uma revolução de inteligência artificial não estivesse prestes a entrar em erupção e mudar absolutamente tudo. Eles não têm medo de soar ridículos, a aversão do cidadão comum por ideias aparentemente absurdas é, para eles, apenas um exemplo de preconceito irracional e singularitarianos não barganham com a irracionalidade. Quando você entra no espaço mental deles, você experimenta um gradiente extremo de visão de mundo, uma rígida tesoura  ontológica que separa os singularitarianos do lugar comum do restante da humanidade. Espere turbulência."

Diferença entre transhumanistas e singularitarianos
Depois de arriscar a tradução do trecho acima, seria interessante tentar traçar a diferença entre transhumanismo e singularitarianismo (ou a diferença entre transhumanistas e singularitarianos). 
Eu diria que transhumanismo e singularitarianismo são dois círculos com uma grande área de interseção e quase concêntricos: na prática, estamos falando das mesmas pessoas, todo singularitariano é um transhumanista e os transhumanistas costumam levar em conta a singularidade. Mas nem sempre é assim: há transhumanistas que não endossam a ideia da singularidade e são céticos quanto à ela. Se não me falha a memória, há uma palestra do filósofo Max More em que ele fala que as expectativas em cima do progresso exponencial são exageradas. Da mesma forma, Nick Bostrom em um artigo sobre a superinteligência (considerada como risco existencial para a humanidade), encara a ocorrência da singularidade em termos de probabilidades distribuídas (visão que compartilho). Após um cuidadoso levantamento de evidências, ele, se não me falha a memória, estimava em 50% a chance de desenvolvimento de uma superinteligência até a década de 2030 (o ano não é exatamente este, o artigo dele é de 1993). Estes, são transhumanistas que não endossam a ideia da singualidade, e, portanto, apenas "transhumanistas".

Mas penso que será difícil encontrar o contrário: um singularitariano que não se defina como transhumanista, a não ser por uma questão de gosto terminológico. Kurzweil, o maior propagador do ideario e vocabulário singularitariano (ou singularitário), diz que compartilha as ideias transhumanistas, mas que não gosta do termo "transhumanismo" por transmitir a impressão de que se trata de "transcender a humanidade, ir além da humanidade", quando, para ele, ser humano é exatamente e naturalmente transcender condições (não concordo com este argumento porque a transcendência e suas consequências aqui estão em uma escala totalmente diferente e sem precedentes). Ele e seus simpatizantes preferem, portanto, o termo "singularitariano" a "transhumanista".

Além desta distinção, uma outra talvez se aplique aos transhumanistas e singularitarianos. De minha parte, tenho visto que filósofos transhumanistas (como David Pearce, Max More e Nick Bostrom) são mais cautelosos em suas previsões, mais enfáticos quanto dificuldades técnicas no meio do caminho e, portanto, mais céticos. Por outro lado, cientistas da computação, como Raymond Kurzweil e Ben Goertzel são mais ousados quanto ao "timing" e dificuldade para a ocorrência de certos eventos, como este crucial, o do surgimento de uma superinteligência (Kurzweil, alega que seus críticos subestimam o progresso exponencial da tecnologia e do conhecimento). Alguns comportamentos e tendências deste segundo grupo alimentam a piada de que "a singularidade é o arrebatamento dos nerds" ou de que se trata de mais uma religião e superstição. Mas, ao contrário do que essa crítica (que é parcial e seletiva) indica, o movimento transhumanista internamente também está bem servido de espírito crítico.

Rubem Alves: A pior idade

Rubem Alves: "Algum demônio disfarçado de anjo inventou que velhice é a "melhor idade". Só pode ser gozação ou ironia."
Já postei aqui no blog um pequeno comentário da escritora Lygia Fagundes Telles sobre a velhice: “Sou da idade da pedra lascada. A velhice é um horror. Era uma jovem tão bonita. Mas, para não envelhecer, você tem que morrer jovem. E ninguém quer morrer jovem.” (não, Lygia, há outro jeito de não envelhecer também, embora ainda não tecnicamente implementado).

Agora me deparei com este outro texto, no mesmo teor, do grande ensaísta e linguista Rubem Alves. Parece que o mundo precisa mesmo de crianças e artistas para apontar as verdades inconvenientes. Isso também revela uma gradual mudança de percepção em relação ao tema da inevitabilidade da morte e do envelhecimento, uma lenta erosão das racionalizações justificadoras. Escrever algo do tipo, há algum tempo soaria um insulto.

 * * *

A pior idade 

"As três idades do homem e a morte" de Hans Baldung. c.1539.


 RUBEM ALVES (Folha de S. Paulo, terça-feira, 03 de fevereiro de 2009)

DEVE TER SIDO um demônio zombeteiro disfarçado de anjo que inventou que a velhice é a "melhor idade". Chamar velhice de "melhor idade" só pode ser gozação ou ironia.

O que me faz lembrar o acontecido há muitos anos. Naqueles tempos não havia o orgulho em ser negro. As alusões à cor eram tão proibidas quanto as sugestões sexuais. "Ela está grávida" -ninguém dizia isso, a palavra "grávida" era obscena, chula. Em vez da verdade nua e crua, uma expressão que todo mundo entendia sem que a palavra obscena fosse pronunciada era "Ela está num "estado interessante'"...

Pois uma família protestante se preparava para receber a visita de um conhecido pastor negro. (Um parêntese. Nos Estados Unidos, a palavra "negro" era e é ofensiva. Em vez de "negro" ["nigro"] usa-se "black", "black is beautiful". A palavra "negro" era mais ofensiva ainda na sua forma corrompida "niger".
As crianças eram educadas para o racismo como se fosse a coisa mais natural, e eram ensinadas a cantar numa brincadeira "Eeny, meeny, miny, moe, catch a niger by his toe" -"Agarre o crioulo pelo dedão...").
Acontecia que o tal pastor -isso era bem conhecido de todos- sofria de um humilhante complexo por causa da sua cor. Os hospedeiros ficaram angustiados diante da possibilidade de que sua filha de seis anos -um doce de menina- fizesse inocentemente alguma referência a esse fato. Trataram então de adverti-la: "Não diga jamais que o reverendo Clemente é negro...".

A menina ouviu e aprendeu. O hóspede chegou, tudo estava correndo às mil maravilhas, a menina doce se apaixonou pelo reverendo Clemente e, num momento de carinho, assentada no seu joelho, ela tomou a sua grande mão negra nas suas minúsculas mãos brancas e disse: "Sua mão é branquinha, sua mão é branquinha...".

É precisamente isso que acontece quando os alto-falantes das salas de embarque nos aeroportos anunciam: "Terão prioridade para o embarque gestantes, crianças, pessoas com dificuldade de locomoção e pessoas da melhor idade".

Já reclamei com os funcionários, dizendo-lhes a minha irritação. Eles me disseram que nada podiam fazer porque as ordens vinham de cima. Concluo que "em cima" não há nenhum velho.

O que é melhor? Ser respeitado ou ser desejado?

Velhice é quando a gente começa a ser tratado como "objeto de respeito" e não como "objeto de desejo". Mas o que quero não é ser olhado com respeito, mas com desejo...

Aconteceu faz 25 anos, uma tarde, no metrô, vagão cheio, tudo bem, eu me via jovem, pernas fortes, segurei-me num balaústre. Meus olhos começaram a passear pelo rosto dos passageiros -cada rosto é mais misterioso que um universo- até que meus olhos se encontraram com os olhos de uma jovem que me olhava, eles, os seus olhos, sorriam para mim e eu fantasiei que ela me desejava. Ficamos assim por alguns segundos trocando olhares de namorado até que ela, num gesto delicado, se levantou e me ofereceu o seu lugar... Seu gesto me disse sem palavras: "O senhor é velho. Eu o respeito. Eu lhe dou o meu lugar...". Nesse momento percebi que a minha idade era a pior de todas. A melhor idade era a dela, da mocinha que me deu o lugar...
Sugiro um nome diferente para essa idade, que não é ironia, mas poesia: "Pessoas portadoras de crepúsculos no seu olhar...".

Co-fundador do Skype e do Kaaza, Jaan Tallinn, sobre sua vida: "Dos soviéticos à Singularidade"

Co-fundador do Skype e do Kaaza, Jaan Tallinn, fala um pouco sobre sua vida e os desafios que a marcaram: "Dos soviéticos à Singularidade" (Tallinn nasceu na Estônia em 1972, então país comunista do leste europeu).
Link para a palestra (infelizmente, sem legendas):
http://vimeo.com/15626117

domingo, 13 de março de 2011

Em 1911 era descoberto o núcleo atômico

NO CORAÇÃO DA MATÉRIA (Folha de S. Paulo, 13 de março de 2011)
CÁSSIO LEITE VIEIRA

NO OBITUÁRIO QUE o "New York Times" publicou em 20 de outubro de 1937, lia-se que poucos humanos atingiram, em vida, a imortalidade -e, muito menos, o Olimpo. As palavras refletem a extensão da fama do físico neozelandês Ernest Rutherford, cuja biografia lembra a de heróis de contos infantis em que garotos pobres se tornam nobres e admirados.

A obra científica de Rutherford impressiona. Mas ele será sempre lembrado como aquele que escavou o átomo a fundo e, de lá, trouxe ao mundo o coração da matéria, o caroço duro e diminuto que ele batizou "núcleo atômico".

Para entender Rutherford e suas descobertas sobre a radioatividade, a estrutura dos átomos e a transmutação dos elementos, é preciso descrever, ainda que brevemente, a física do final do século 19, da qual ele é fruto. Nas palavras do historiador da ciência Erwin Hiebert, esse cenário era marcado por uma crescente percepção de uma unidade das ciências físicas; pela urgência em abarcar os fenômenos do "muito grande" e do "muito pequeno" em uma só visão do mundo; por uma nova atitude, mais ousada, em relação à especulação científica; e pela ênfase nas colaborações científicas.

Segundo Hiebert, os físicos estavam prontos para (se preciso) construir um mundo radicalmente novo para englobar os novos (e aparentemente não relacionados) fenômenos: elétrons, raios X e radioatividade. Esta última -radiação cuspida espontaneamente pelos átomos- era um constrangimento para a física e a química do século 19, que não podiam explicá-la.

Rutherford, depois de um flerte com as ondas de rádio, descobertas em 1887, passou a estudar a radioatividade, campo que então reunia os elementos básicos para uma (próspera) carreira científica: era intrigante, fascinante, promissor e -principalmente- ininteligível. E com pouquíssima bibliografia -como justificou, mais tarde, a física polonesa Marie Curie, ao escolher o tema para seu doutorado naquele final de século.

ESFORÇO E SORTE 
Nascido em 1871, em Spring Grove (hoje, Brightwater), área rural ao sul de Nélson, na Nova Zelândia, Rutherford cresceu em família pobre, com pai mecânico e agricultor e mãe professora primária. Era o quarto de 12 filhos. Foi nesse ambiente que, segundo o historiador da ciência Lawrence Badash, no verbete "Rutherford (1871-1937)" do "Dicionário de Biografias Científicas" (Contraponto, 2007), se forjaram os princípios que levariam o jovem Ernest da periferia do império britânico ao posto de cientista mais famoso do início do século passado: simplicidade, retidão, economia, energia, entusiasmo e muita leitura.

As biografias de Rutherford costumam extrapolar para sua juventude o talento de sua maturidade. Pesquisas feitas pelo físico e biógrafo John Campbell mostraram que o estudante -talentoso em matemática e física- estava mais para esforçado e iluminado pela sorte do que para "gênio". Suas oportunidades acadêmicas se concretizaram porque os primeiros colocados acabavam, por algum motivo, não aceitando as bolsas de estudo.

Foi uma dessas bolsas que levou Rutherford, em 1895, ao Laboratório Cavendish, em Cambridge (Inglaterra), referência em física experimental. No ano seguinte, Rutherford finalizou um detector que podia captar ondas eletromagnéticas a até 800 metros -feito tecnológico comparável a um telégrafo sem fio. Começava assim a manifestar, em continente europeu, sua grande capacidade de imaginar, projetar e construir artefatos.

Rutherford tentou patentear seu detector, mas seus ganhos impossibilitavam essa despesa extra: sua bolsa mal o sustentava, atirando-o no limite entre a pobreza e a miséria. Assim, o desenvolvimento do telégrafo sem fio ficaria a cargo do italiano Guglielmo Marconi, que levaria o Nobel de Física de 1909 pela invenção.

O detector e outras habilidades experimentais de Rutherford impressionaram seu chefe no Cavendish, Joseph John Thomson, que, em 1897, descobriria a primeira partícula subatômica, o elétron. A partir de então, a palavra átomo (que em grego significa "não divisível") passaria a ser uma contradição semântica.

Nos últimos 2,5 mil anos, vários modelos de átomos haviam sido idealizados, mas essas entidades diminutas sempre obedeceram aos ditames do filósofo grego Leucipo (c. 500-450 a.C), pai do atomismo: "Toda a realidade consiste em partículas duras e indivisíveis, movendo-se e colidindo no espaço vazio".

(...)

A historiografia da ciência vê em Rutherford as origens da "Big Science", o tipo de ciência (principalmente física) feita depois da Segunda Guerra, com enormes volumes de dinheiro, grande quantidade de pesquisadores, laboratórios nacionais, temas por vezes ligados a questões militares. Badash enxerga Rutherford como precursor na formação de equipes de pesquisa, nos laboratórios com numerosos integrantes, no grande fluxo de publicações, na internacionalização dos resultados, nos esforços de especialização, nos meios de disseminação da informação, e na competição -todos eles moeda corrente na ciência atual.

A tese de Badash -apesar de bem argumentada- causa espanto para aquele que conheceu o Cavendish nos tempos heroicos, nos quais um aluno que precisasse de um cano de aço para um experimento recebia uma serra e uma bicicleta velha, da qual devia extrair o que desejava. Era a era romântica da física experimental, com experimentos feitos em prédios úmidos, empoeirados, cheio de fios e equipamentos dispostos sem ordem aparente, empestados pela fumaça dos charutos do chefe, que fazia, para o temor dos estudantes, a ronda diária. Época de físicos com mãos e roupas sujas de graxa.

NÊUTRON
A indiferença de Rutherford em relação à mecânica quântica -cuja matemática ia muito além de seus conhecimentos- só foi amenizada com a volta dos grandes resultados do Cavendish. Em 1932, James Chadwick descobriu o nêutron, partícula sem carga elétrica, companheira do próton no núcleo atômico. Chadwick percebeu que aquela partícula, cuspida depois que átomos de berílio eram bombardeados com partículas alfa, não era um raio gama -como foi teorizado à época-, mas algo que seu chefe, Rutherford, já havia proposto em 1920: o nêutron.

Agora, o modelo atômico parecia se completar: prótons, nêutrons e elétrons. Mas a descoberta ou a proposição de novas partículas subatômicas (pósitron, múon, píon) na década de 1930 viriam embaralhar o cardápio dos constituintes básicos da matéria, justamente numa época em que havia muita resistência à aceitação de novos membros nesse clube, cujas portas os físicos sonhavam em fechar. Foi uma época da qual Rutherford desfrutou pouco, assoberbado por palestras, compromissos, cargos e tarefas burocráticas.

AOS PÉS DE NEWTON
Aquele neozelandês de olhos claros, voz grave e tenebrosa, que metia medo em seus alunos, exigente e com pouca paciência para experimentos que tardavam a dar resultados foi, no entanto, respeitado e admirado. Sua humildade foi reconhecida: não pôs seu nome em artigos importantes, mesmo que a ideia do experimento tenha partido dele. Não pleiteava nem dinheiro, nem equipamento além do que realmente precisava.
Passou por momentos difíceis. O pior foi a morte de sua filha no parto de seu quarto neto. Lutou pela paz mundial (pediu que aviões não fossem usados para fins bélicos), participou do esforço de guerra para deter o avanço nazista, defendeu a liberdade de imprensa e o direito das mulheres na ciência, concedendo bolsas e oportunidades para físicas.

Até 1930, quase tudo que havia sido feito sobre a estrutura nuclear vinha de Rutherford, escreveu o historiador da física Daniel Kevles. O problema do modelo atômico nuclear -instabilidade, segundo as regras da física clássica- foi corrigido com base na teoria quântica, em 1913, por um de seus ex-alunos em Manchester, o físico dinamarquês Niels Bohr.

Tornou-se sir em 1914 e foi o primeiro barão Rutherford de Nélson em 1931. Em seu brasão, escolheu homenagear seu país natal, com símbolos da Nova Zelândia (um pássaro kiwi e um guerreiro maori). Suas pesquisas em radioatividade e física nuclear hoje levam conforto e saúde a boa parte da população, por meio de usinas nucleares e equipamentos de diagnóstico e tratamento para o câncer, para citar apenas dois casos.
Os restos de Rutherford -morto em 19 de outubro de 1937, aos 66 anos, em Cambridge, por postergar a cirurgia de sua hérnia umbilical- estão aos pés do magnífico altar de Isaac Newton, na Abadia de Westminster, em Londres. Assim, aquele que quiser chegar a Newton, para observar o passado, deverá necessariamente passar por Rutherford. Nada mais justo.

sábado, 12 de março de 2011

Pensando sobre a morte e... novamente, o problema "ciência versus religião"



Por mais que às vezes meditemos sobre a morte, sentimos o peso de sua mão apenas quando ela vem cobrar seu tributo. Em nossa jornada diária, geralmente nos encontramos em um estado de consciência e de interação com os outros em que, muito raramente,  cuidamos de revelar para eles a essência do que sentimos, do que o outro representa. As interações humanas cotidianas costumam  se restringir ao plano do entrechoque de personalidades, das cascas criadas pelos hábitos e pela monotonia. Então, vem a morte e, de uma vez só e para sempre, nos arrebata a possibilidade de poder dizer e enfatizar tudo o que gostaríamos de ter dito e ressaltado. Difícil expressar a dor que isso representa. A melhor expressão que conheço é na tradução de Fernando Pessoa do poema de Edgar Allan Poe, "Nunca Mais". A angústia da inalterabilidade e definitividade de uma situação pra sempre dolorosa.

Não acredito na possibilidade de vida ou existência após a morte, não vejo qualquer evidência, por mais remota que seja, desta possibilidade -- a não ser a própria tendência sutil ao auto-engano para encobrir este aspecto desagradável da existência e evitar o sofrimento psicológico. Esconder a morte da consciência como o bebê que se esconde dos pais tapando os olhos com as mãozinhas, acreditando que mais ninguém o vê. Particularmente, vejo até problemas muito maiores, inclusive sociais (previdência, economia etc.), éticos (sofrimento, a destinação de recursos cada vez maiores aos idosos, ao invés de crianças e jovens etc.), envolvendo o envelhecimento (viver uma vida cada vez mais prolongada com cada vez menos prazer e mais sofrimento) do que na morte em si. Penso que  quando ela chega, muitas -- quase todas eu diria -- coisas se perdem, algumas não. A estrutura da mente humana, essa máquina de descobrir e representar o mundo com a qual nascemos, de certa forma se mantém, pois seu padrão é transmitido e preservado, com pequenas variações, pela reprodução biológica. As melhores ideias e criações de uma pessoa também podem ser preservadas na cultura e essa talvez, do ponto de vista social, seja a preservação que mais importa: vidas pouco produtivas são apagadas rapidamente pela morte, enquanto vidas produtivas e significativas se projetam sobre as futuras gerações, como um grande algorítimo genético cultural que vai selecionando, acumulando e aperfeiçoando as melhores ideias. No entanto, o ponto que nos interessa enquanto indivíduos, a rica e intrincada trama de memórias, sensações, emoções, habilidades, crenças etc. que compõem o que veio a ser uma pessoa -- um verdadeiro registro singular de uma época a partir de uma perspectiva única do universo: você -- tudo isso se perde, como se o único exemplar de um raro livro (embora, talvez, tedioso) se perderia caso fosse queimado. Sobram pequenas citações em outros livros, que também se queimarão. 

Durante a benção, logo antes do enterro, o padre disse palavras incrivelmente simples e belas, ressaltando que a morte é apenas uma passagem e que "nosso verdadeiro aniversário deveria ser o dia de nossa morte, assim como os santos são celebrados segundo o dia da morte, não do nascimento; pois é pela morte que nos livramos do sofrimento e das lágrimas e somos acolhidos por Deus. Agora, ele está em situação muito melhor que a nossa... No final, Deus triunfará sobre a morte, está escrito: a morte é o último inimigo a ser derrotado...".

É impressionante a beleza e sedução que estas palavras ganham quando pronunciadas no lugar certo, na hora para as pessoas certas, isto é, naquele momento em que você contempla  o corpo de alguém que, horas antes, falava, gesticulava, fitava e, agora, está frio e duro no interior de um caixão. Momento em que você também é lembrado de que sua vez chegará. Neste momento de imensa perplexidade, o aspecto tão evidentemente infantil e consolador destas ideias passa despercebido ou é quase perdoado. Digo quase porque, apesar de não ser fã da psicanálise, nunca me saiu da mente a observação inteligente de Freud de que a visão religiosa do mundo "é tão patentemente infantil, tão estranho à realidade, que, para qualquer pessoa que manifeste uma atitude amistosa em relação à humanidade, é penoso pensar que a grande maioria dos mortais nunca será capaz de superar essa visão da vida".

Isso reforça, em mim, a ideia da religião como uma tecnologia psicológica poderosíssima, um lastro importante para a existência humana, uma necessidade quase fisiológica em razão da condição humana: a de mortal consciente. Mas, também, me faz pensar que em algum momento, provavelmente não muito distante, uma tecnologia suficientemente avançada vai fornecer soluções técnicas (e não apenas consolo psicológico) para a condição humana. A ideia de uma "imortalidade da alma" ou uma continuação do "espírito", um paraíso de delícias é tão irresistivelmente sedutora que o homem, depois de milhares de anos sonhando com isso, vai, começar a criar uma realidade que gradualmente se aproxime destes doces sonhos.

Aliás, curiosamente, foi pensando nisso que cheguei ao ideário de Ray Kurzweil há alguns anos. Depois de refletir um pouco sobre como os videogames arrebatam algumas pessoas e como o SecondLife  (há alguns anos atrás parecia ser bem mais promissor) poderia se tornar um mecanismo de realização de sonhos, pensei: "é possível que o desenvolvimento dessas coisas nos leve a uma espécie de espiritualidade artificial, uma espiritualidade eletrônica ou virtual, baseada na tecnologia." Aí, fazendo algumas buscas no Google, acabei chegando ao livro "A Era das Máquinas Espirituais". Não era exatamente o que eu tinha em mente, mas era muito próximo.

Na semana passada assisti (depois de dois lamentáveis anos de espera...) ao documentário "Transcendent Man" e a ideia central  do filme é exatamente esta: a de que a engenhosidade humana pode forjar um mundo tão radicalmente diferente do nosso que sua descrição mais próxima só pode ser encontrada na metáfora do paraíso. O documentário é bem feito e inteligente. Não acrescenta muito para quem já leu os livros e acompanha as ideias de Kurzweil, mas acredito que pode ter um grande impacto para quem não estava a par dessas ideias.



Isso significa que o transhumanismo é uma religião?  Este talvez seja o mais rotineiro  ataque de que o movimento é alvo. Mas não é uma crítica sofisticada, nem necessariamente justa. E é fácil entender o porquê. Inegavelmente, transhumanismo e religião tem muito em comum: a promessa da satisfação dos mais profundos desejos decorrentes da condição humana, de mamífero bípede racional, ciente da própria dor e da própria miséria relativa a certos aspectos de sua condição. Superar a escassez, a ignorância, o sofrimento, a doença, o envelhecimento, as injustiças e, como disse o padre que citei acima, "o último inimigo a ser derrotado: a própria morte..." e transcender nossas limitações, diminuir o contraste entre "a natureza de sonhos e a qualidade de nossos condicionantes." Tudo isso tem a ver com a religião e transhumanismo.

Os meios utilizados em um e outro caso, no entanto, são absolutamente diferentes. No cerne do método religioso está o mito: a criação de estórias e explicações (nem sempre sutis) que tentam assegurar que todos os males são passageiros e que, após a morte, o crente bem comportado e conformado se livrará deles no paraíso, como a criança obediente que ganha uma bicicleta no Natal. Mas a religião não se limita a falar apenas isto... Ela se aventura a fornecer explicações (quase sempre desastrosas) sobre o mundo natural, ponto em que pode ser facilmente e perigosamente desmascarada. Como consequência, a religião tenta suprimir a contestação, o espírito crítico, a investigação e a dúvida. Se as evidências naturais (ex: fósseis) dizem algo, mas os textos religiosos dizem o contrário, a evidência só pode estar errada (conclusão: o demônio criou os fósseis para colocar dúvida nas pessoas). Se em sua forma poética e destilada pelos sábios o mito pode até ser bonito, sua exploração econômica (ou melhor dizendo, a exploração econômica da miséria humana) é algo que me cheira à contrafação. E, consumi-lo, é pagar caro por uma verdade pirateada, isto é, por uma mentira.

A alternativa tradicional a isso era a resignação com a condição humana e à vida como ela é, caminho, difícil, para poucos. Para estes, o problema não estaria na condição humana, mas na sua não aceitação. Eu colocaria aqui o ateu puro -- que às vezes vai criticar o transhumanismo como outra crença supersticiosa. Um aspecto que me desagrada nesse grupo é o "pensar dentro da caixa", como se o estado atual de nosso jovem conhecimento científico nos autorizasse a dizer "isso é possível" ou "aquilo é impossível". Ou, ainda, como se não houvesse uma linha divisória porosa e mal delimitada entre o que é possível e o que só pode ser fantasia. Muitos, ainda, comportam-se como se ser pessimista ou cético fosse sinônimo de estar certo. O ceticismo é ferramenta para se aproximar da realidade, não ela própria. Para transformar a realidade, sempre foi preciso outros ingredientes: a audácia e a experimentação.

E o transhumanismo, como pretende satisfazer os profundos desejos inerentes à condição humana? Com a ciência e a tecnologia, os produtos da inteligência humana. Mirando as fantásticas realizações da ciência moderna e extrapolando suas tendências, sustenta, com base nestas evidências, que é possível mudar os aspectos indesejáveis da condição humana (e, mesmo, transcender essa condição). Neste caso, o cultivo do espírito  crítico e cético inerente à investigação científica se faz necessário pois, do contrário, estaríamos retornando à primeira opção (religiosa): a da satisfação com os contos de fadas.

Infelizmente, a coisa não é sempre tão arrumada assim na agitação do mundo real. Na prática, o caminho do meio é sempre perigoso (é mais fácil escolher entre o preto e o branco) e ser transhumanista é andar no fio da navalha: de um lado, os profundos desejos decorrentes da natureza humana; de outro, o espírito científico  necessário à sua real concretização, às vezes negando a realização (ou realização imediata) dos desejos. Os limites entre um lado e o outro são cinzentos e incertos. Por sermos ansiosos e impacientes, não raro, pode-se perceber alguém cruzando estes limites em direção à satisfação dos desejos, independentemente de sua possibilidade de implementação objetiva, como o marinheiro que, atraído pelo canto de uma sereia, despedaça seu navio (a razão) em rochedos para ser devorado por ela. Aceitar e conviver com a incerteza é extremamente difícil, pois nossos cérebros parecem não ter sido moldados para isso. É bem mais fácil se guiar pelo preto no branco: ser um crente  fervoroso ou um ateu resignado.

Não obstante este risco, no momento estou convencido de que, pelo menos para determinado tipo de personalidade (certamente, o tipo mais comum) trilhar o primeiro (religião) ou o terceiro  (transhumanismo) caminho conduz a maior felicidade, com tendência a investir mais e a extrair mais da vida, sem o desconforto existencial decorrente da premissa de que todos aspectos desagradáveis da existência humana são imutáveis e de que a morte não irá necessariamente anular tudo. Para quem já não consegue se encantar com a religião, o transhumanismo é uma boa opção, além do que, não desemboca no dilema "quanto mais penso, mais sofro", tão comum às mentes religiosas. Para o transhumanista, "quanto mais penso, maior a chance de  transformar o mundo e sofrer menos".

O problema sério com a religião é que, se ela serviu de suporte existencial/cognitivo por todos esses milênios (quando a apreensão da natureza pelo homem não lhe permitiria mudar nada mesmo, o melhor era se conformar), agora, quando a era das soluções reais parece se aproximar, a religião passa a ser um estorvo ao desviar recursos, esforços e atenção dessas novas possibilidades. O que foi um produto da evolução cultural para que os seres humanos levassem com tranquilidade  e obediência suas curtas vidas (uma média de 25 a 30 anos até alguns milênios atrás; 45 anos no início do século XX nos EUA), pode tornar-se o maior obstáculo para o início de um processo  radical de evolução do próprio ser humano que poderia aproximar as promessas religiosas da realidade.

Mas não é de se esperar que ideias como o transhumanismo desempenhem logo um papel de substituto das religiões tradicionais. Não se substitui de uma hora para outra instituições domesticadas e lapidadas pelos milênios.  Será necessário ainda muito design. As religiões proporcionam socialização, fornecem suporte emocional e um programa de aprimoramento moral. No entanto, se me fosse perguntado, o que pode substitutir as religiões, eu não hesitaria em apontar o transhumanismo como um forte candidato.


Para aprofundar mais:
O FUTURO DA MORTE (Folha de S. Paulo, 04 de novembro de 2001).