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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um português na Singularity University





Pode-se criticar a SingularityU em certos aspectos. Eu, por exemplo, acho que os cursos muito curtos e caros, e a universidade em alguns aspectos lembra mais uma universidade corporativa (no estilo da McDonald's University) que uma universidade propriamente dita. Por outro lado, falta às grandes e tradicionais universidades um ingrediente principal: a inspiração e entusiasmo para transformar positivamente o mundo. Pelo único fato de inspirar e mobilizar inteligências do mundo inteiro a trabalharem por um futuro melhor, de colocar grandes inteligências a serviço da generosidade, por ser um poderoso veículo de inspiração, esta jovem e dinâmica instituição merece minha admiração! (vai aqui minha admiração pelo  trabalho de Nuno Martins! -- veja o vídeo).

Acho que as grandes, as maiores realizações da humanidade foram feitas assim: por pessoas altamente motivadas e impelidas por um ideal (resgatei a memória de uma antiga leitura de José de Alencar: “a razão cardeal de toda a superioridade humana é sem dúvida a vontade. O poder nasce do querer. sempre que o homem aplicar a veemência e a perseverante energia de sua alma a um fim, ele vencerá os obstáculos e, se não atingir o alvo, pelo menos fará coisas admiráveis. Mas para que o homem se entregue assim a uma idéia e se cative a um pensamento, é necessário ser atraído irresistivelmente, ser impelido pelo entusiasmo."). É exatamente o que a SingularityU está tentando promover.

Já é meio antigo, mas vale a pena ver de novo a palestra no TED em que a SingularityU foi lançada (é possível escolher legendas em Pt-br).

Feliz, grande, melhor, mais saudável e inteligente 2011 para todos! Um Fabuloso Futuro!

sábado, 18 de dezembro de 2010

Histórias transhumanistas: o único meio de atingir as estrelas é vivendo mais

Visão privilegiada da Via Láctea no céu seco do Arizona, EUA. O único meio de atingir as estrelas é vivendo mais, muito mais.

Arizona, década de 90. Dois irmãos se deslumbram com visões noturnas da Via Láctea e sonham com viagens de exploração espacial. No entanto, são inteligentes e realistas o bastante para admitirem que, dado o ritmo do progresso da exploração espacial, não haveria tempo, no curso de suas vidas, para viagens espaciais: provavelmente ainda demorará uma década ou mais só para o homem retornar à Lua (feito este que deverá ser realizado pelos chineses; uma viagem a Marte é ainda mais remota). Ademais, mesmo que se acelerasse o ritmo das viagens espaciais, como ocorreu na época da Guerra Fria, você precisaria, na melhor das hipóteses (com naves que viajassem muitíssimo mais rápido que as de hoje), de cerca de um século só para fazer a viagem de ida para a estrela mais próxima. Definitivamente, seres humanos não foram desenhados para viagem espaciais.

O que fazer, então? Talvez deixar o sonho da exploração espacial para lá e tocar a vida, fazendo outra coisa. Ganhar dinheiro e se dedicar à aviação ou aos foguetinhos amadores como hobby. Mas, espere aí. E se... Não, isso é impossível! Mas não custa pensar... e se descobríssemos tudo sobre biologia molecular de modo que pudéssemos reescrever nosso DNA para vivermos uma vida longa o bastante (de preferência, indefinidamente longa, sem envelhecimento) para que pudéssemos, então, realizar explorações espaciais sem pressa?

"Roteiro barato de ficção científica", poderia passar pela cabeça de algum leitor enquanto torce o nariz para este post. Mas esta é a história real dos irmãos Michael and William Andregg ("brothers Andreggs").

Trabalhando por cinco anos, de maneira independente e com pouca instrução ou orientação formal, Michael e William desenvolveram uma forma inovadora de manipulação de moléculas individuais em uma plataforma que permite um novo tipo de seqüenciamento de DNA muito mais barato e rápido que as técnicas tradicionais. Os irmãos fundaram uma empresa, a Halcyon Molecular, e receberam alguns milhões de dólares de investimento (dentre seus investidores, encontra-se o lendário Peter Thiel), inclusive US$2,5 milhões do  National Institutes of Health (NIH) dos EUA como parte de um programa que visa desenvolver senquenciamento genético de baixo custo (os Andreggs acreditam que um completo entendimento do genoma, com a transformação da biologia molecular em uma tecnologia da informação, é indispensável para terapias que possam radicalmente estender a longevidade humana). Colaboradores da Halcyon Molecular também publicaram um trabalho científico que ganhou a capa da revista Nature. Confira trecho de entrevista de William Andregg ao TechCrunch:



"Não há nada inevitável sobre o nosso sucesso. Todo mundo que tem talento suficiente para fazer alguma contribuição deveria estar tentando ajudar, em todas as frentes, por qualquer meio ético, como se fosse uma questão de vida ou morte -- porque é." -- William Andregg

TechCrunch: Qual é sua opinião sobre longevidade e a extensão da vida em comparação com as de Aubrey de Grey e Ray Kurzweil?

William Andregg: "Partes do projeto SENS devem ser urgentemente financiadas e testadasDito isto, eu trabalho com sequenciamento, e não com SENS, porque a nossa abordagem para a cura do envelhecimento busca primeiro transformar a biologia em uma ciência da informação (...).  Acredito que podemos chegar a um completo entendimento da biologia humana em apenas algumas décadas, o que é mais parecido com o cronograma do Kurzweil. Por outro lado, se o cronograma do SENS for perseguido hoje, poderá salvar milhões de vidas antes de se conquistar um total entendimento da biologia que seja aproveitável para nós. É bom apostar em coisas diferentes.

"Quanto ao Kurzweil, não quero parecer injusto e eu gostaria de ouvir seus pensamentos sobre isso, mas tenho receio de que seus livros desmotivem as pessoas que poderiam contribuir para a causa, talvez dando-lhes a impressão de que a Singularidade não só vai chegar como é inevitável. Alimente-se direito, faça exercícios físicos, tome essas pílulas e, não se preocupe, esses cientistas inteligentes e trabalhadores vão resolver tudo para você. Em contraste, uma grande qualidade de Aubrey como líder é que ele exorta as pessoas a se mexerem e dar uma contribuição.

"Nós podemos não sobreviver nos próximos 20 anos. Nós podemos nunca curar o envelhecimento. Não há nada inevitável sobre o nosso sucesso. Todo mundo que tem talento suficiente para fazer uma contribuição deveria estar tentando ajudar, em todas as frentes, por qualquer meio ético, como se fosse uma questão de vida ou morte -- porque é.
"E os mais talentosos devem enviar seus currículos imediatamente a Halcyon."

Colaboradores da Halcyon Molecular ganharam a capa da Nature com o recente artigo “Atom-by-atom structural and chemical analysis by annular dark-field electron microscopy”.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Transhumanismo e generosidade

Desde a antiguidade a generosidade (a disposição de consumir os próprios recursos em benefício alheio) é considerada um dos atributos das pessoas virtuosas. Para Aristóteles, é o meio termo entre a avareza e a extravagância. E não é difícil entender o porquê desta virtude ser tão bem cotada: a generosidade provavelmente possui raízes profundas na mente humana, pois se trata de um importante fator de agregação e fortalecimento do tecido social. 

Talvez não seja exagerado afirmar que a maior parte do progresso humano deve-se a atos de generosidade social. Pessoas que dedicaram seu tempo, suas energias, suas vidas, suas fortunas a uma causa que consideraram maior que si mesmas, que transcendiam suas existências singularmente consideradas, empurrando o mundo para frente (a imagem que me vem a mente, aqui, é a Howard Hughes retratada no filme "O Aviador". E, por falar em avião, poucos exemplos seriam mais ilustrativos do que o nosso Santos Dumont).

No movimento transhumanista, é possível encontrar um bando dessas pessoas geniais e generosas trabalhando juntas. Pessoas que estão destinando seu tempo, suas vidas e seu dinheiro a transformar positiva e radicalmente a existência humana.

Nesta semana, o empresário Peter Thiel (cofundador do PayPal e investidor inicial do Facebook, um bilionário  que está não tem medido esforços para acelerar a chegada de um futuro radicalmente melhor) organizou um jantar com outros magnatas do Vale do Silício destinado a arrecadar doações para organizações relacionadas à temática transhumanista, como a SENS Foundation, o Seasteading Institute e a Humanity+, dentre outros. O próprio Thiel tirou do bolso alguns milhões de dólares em benefício da SENS Foundation e meio milhão para o Seasteading. No jantar, foi anunciado que o empresário e filantropo Jason Hope doou meio milhão de dólares para a mesma SENS Foundation. Nas palavras do próprio Jason Hope:

"Tenho um grande interesse na Fundação SENS e o trabalho do Dr. Aubrey de Grey há algum tempo. Acredito que seu trabalho é essencial para o avanço da medicina humana e sua abordagem para o problema global do envelhecimento humano e suas doenças associadas (doença de Alzheimer, aterosclerose, diabetes, etc) é o único caminho a percorrer. Seu trabalho e o trabalho dos outros que o apoiam irá conduzir a completa redefinição e reorganização dos cuidados de saúde e indústrias farmacêuticas e de biotecnologia tal como as conhecemos hoje. O avanço da biotecnologia do rejuvenescimento não só é extremamente importante, mas é o futuro. Tenho a honra de apoiar a Fundação SENS nos seus esforços, e espero que o meu apoio ajuda a gerar resultados mais rápidos para toda a humanidade."

Jason Hope: meio milhão de dólares para a SENS Foundation.  Nossos filhos e netos (e, quem sabe, alguns de nós) se lembrarão destes pioneiros para sempre.

Eu me sinto grato a Aubrey, Thiel, Jason e outros por essas ações extraordinárias. Existe muita gente rica no mundo. E, certamente, a grande maioria delas está mais preocupada em dispender seus recursos alimentando a própria luxúria do que em fazer a ciência avançar. Um pequeno (porém crescente) número de pessoas está realizando trabalhos com o potencial de melhorar radicalmente as condições de vida de bilhões de seres humanos, inclusive as minhas, suas e as de nossos filhos. Contribuindo, inclusive, para melhorar a vida mesmo daqueles que ridicularizam e desdenham de propostas como curar o envelhecimento e a inevitabilidade da morte. Talvez este seja o ápice da generosidade: doar até para aqueles que não querem, não entendem, nunca serão gratos mas que, certamente, utilizarão tais recursos quando eles estiverem disponíveis, já que, como disse Machado de Assis, "a vida é o maior benefício do universo, e não há mendigo que não prefira a miséria à morte". 

Machado de Assis pela boca de Brás Cubas: "não há mendigo que não prefira a miséria à morte". Sejamos francos: quando as tecnologias que nos tornem mais inteligentes, saudáveis e felizes estiverem disponíveis, será que os críticos dos transhumanistas e os que hoje desdenham do movimento, também as combaterão?

Eu apreciaria muito se no Brasil tivéssemos pessoas com esta visão e esta generosidade, mas estas aves raras que gorjeiam na Califórnia não gorjeiam por aqui (para fazer justiça às exceções, um caso raro e significativo de generosidade brasileira é a de Lily Safra, que levou à criação do Instituto Internacional de Neurociências de Natal, que,  aliás, desenvolve várias pesquisas de interesse para os interessados na evolução humana). Entre nós, as preocupações  da Casa Grande estão menos voltadas para eliminar o sofrimento humano e propagar inteligência e felicidade do que para ganhar dinheiro fácil vivendo de juros e rendas. A classe média -- que carrega este país -- pode estar desvencilhada desta mentalidade. Podemos contribuir com nossos modestos (individivudalmente) recursos (um pouco de tempo aos fins de semana, redes sociais, o saldo do AdSense, uma doação anual etc.) para acelerar estas mudanças. Lutar por um futuro radicalmente melhor para nós, nossos filhos e até para os estranhos. Não apenas receber. Contribuir também e acelerar as mudanças.

Ecoando, mais uma vez, David Pearce:

"Se queremos viver no paraíso, teremos nós próprios de o produzir. Se queremos a vida eterna, então teremos de reescrever o nosso código genético cheio de erros e tornarmo-nos divinos. 'Possa tudo o que vive ser libertado do sofrimento', afirmou Gautama Buda. É um sentimento maravilhoso. Infelizmente, só as soluções de alta tecnologia podem erradicar o sofrimento do mundo vivo. A compaixão por si só não basta."