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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Cientista canadense faz córnea artificial

Tecido é feito em laboratório com colágeno sintetizado e pode ser alternativa mais segura para transplantes

Teste com dez pacientes não registrou casos de rejeição; nova camada foi completamente incorporada ao olho

GIULIANA MIRANDA

FOLHA DE SÃO PAULO


As longas filas de espera por um transplante de córnea podem estar com os dias contados. Cientistas conseguiram recriar essa camada ocular em laboratório, eliminando a necessidade de um doador para a cirurgia.

Nos primeiros testes, a córnea biossintética recuperou completamente a capacidade de enxergar em seis dos dez pacientes, que tinham lesões ou doenças na córnea.

Em todos os casos, as terminações nervosas voltaram a crescer, e o novo tecido foi completamente incorporado ao organismo.

Segundo os pesquisadores, o método acabou com dois dos principais problemas do transplante convencional: a rejeição ao tecido e a necessidade de tratamento de longo prazo com drogas que diminuem essa rejeição.

As córneas biossintéticas também recuperaram a sensibilidade ao toque e voltaram a permitir a presença de lágrimas, que lubrificam os olhos e evitam problemas como infecções.

"Esta é a primeira vez que um trabalho mostra uma córnea criada artificialmente se integrando ao olho e estimulando a regeneração", afirmou May Griffith, da Universidade de Ottawa (Canadá), uma das líderes do estudo publicado na revista "Science Translational Medicine".
(...)
Como os trabalhos estão muito no início, a técnica não deve chegar a hospitais em menos de dez anos.
 
Artigos completos para assinantes da Folha e do UOL:
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ciencia/fe2608201001.htm

Google e inteligência artificial: o Google Prediction API é o engatinhar de um HAL bonzinho?



Google Prediction API: o engatinhar de um HAL bonzinho?
Texto de Aaron Saaenze


Ok, Google, Eu tenho um adendo ao seu lema oficial: "Don't Be Evil... e não crie Skynet" .O gigante do Vale do Silício tornou disponível "a nuvem" - ou seja, a Internet (ou pelo menos a rede de distribuição de milhares de servidores que suas formas de backbone) - seu software de aprendizagem de máquina. O Google Prediction API permitirá que terceiros desenvolvedores acessem a máquina capaz de aprendizagem através de outros programas, permitindo possivelmente uma nova geração mais inteligente de aplicativos e websites. Este tipo de inteligência artificial é estreito ("Narrow AI"), no sentido do que ele pode aprender, mas é absurdamente geral em como ela pode ser aplicada. Descobrir quais os produtos que seus clientes estão propensos a comprar, classificar e-mails recebidos como amigáveis ou hostis ou determinar se uma atualização de status no Facebook leva informação noticiosa. O vídeo de desenvolvimento do Google abaixo discute as possibilidades da API de previsão. Parece que esta API baseada em nuvem vai ser uma ferramenta muito útil. (...)
Esta será uma grande estrada aberta para novas empresas. Ao invés de precisar de milhões de dólares para desenvolver sua própria aprendizagem de máquina conforme o estado de arte para um problema, você pode simplesmente usar o Google Prediction API. (...)
Como eu disse antes, aplicações como o Google Prediction API não vão se desenvolver espontaneamente em uma inteligência artificial geral (do tipo humano), mas eu acho que eles estão lançando as bases para a sua criação.











A velhice é um horror

“Sou da idade da pedra lascada. A velhice é um horror. Era uma jovem tão bonita. Mas, para não envelhecer, você tem que morrer jovem. E ninguém quer morrer jovem.”
Lygia Fagundes Telles, escritora (Folha de S. Paulo, 22 de agosto de 2010)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Britney Spears quer ser congelada para reviver no futuro


A polêmica cantora Britney Spears não só adquiriu um plano de suspensão criônica na Alcor como também quer investir na empresa. 


"Mais uma vez a cantora Britney Spears prova sua excentricidade. Ela quer ser congelada após a morte e voltar à vida num futuro em que for possível desfazer o processo. Uma fonte ligada à cantora afirmou ao site do jornal The Sun que a criogenia, técnica de congelamento em nitrogênio líquido, é sua obsessão mais recente.

O interesse da cantora pelo assunto é tão grande que ela tem investido em uma empresa pioneira neste tipo de negócio, a Alcor Life Extension Foundation.

A ideia surgiu quando ela soube que Walt Disney tinha sido preservado em nitrogênio líquido para reviver futuramente. A informação é falsa, mas ela pesquisou sobre o assunto e achou que é uma boa opção. Britney teria passado o Dia das Mães na Disney pesquisando o assunto enquanto a babá levava seus filhos para passear no parque.

A mesma fonte afirmou ao tabloide que ela cogitou ser cremada e ter suas cinzas transformadas em diamantes, mas mudou de ideia ao saber que teria a chance de viver no futuro.

Entretanto, para continuar a investir no negócio, Britney precisa convencer seu pai, que atualmente toma conta de suas finanças. A fonte afirmou que o pai da estrela fica feliz que ela tenha essas "pequenas obsessões", porque significa que ela vem olhando sites seguros na internet ou assistindo ao Discovery Channel. A brincadeira não deve ultrapassar os US$ 350 mil - mais do que isso, o pai pode mudar de ideia." Fonte: diversão.terra.com.br

Comentário: Fãs do sexo masculino torcem para que o congelamento não demore muitas décadas (a menos que terapias intensivas anti-envelhecimento se tornem realidade). Brincadeiras a parte, é como alguém disse sobre o discurso de Aubrey de Grey a investidores no Fórum Mundial Econômico: "Os ricos não resistirão à ideia de viver para sempre."


domingo, 22 de agosto de 2010

Sonho lúcido e criônica em Vanilla Sky

Abaixo, vídeo (em espanhol, o único que encontramos, e infelizmente apresenta cortes -- cortaram as falas do psicólogo) e a transcrição de diálogo de um trecho de "Vanilla Sky", obra menos conhecida de Cameron Crowe (diretor de "Quase Famosos" e "Jerry Maguire - A grande virada"), um excelente filme que vale a pena assistir e, a meu ver, só peca pelo defeito de todo filme americano, o didatismo (neste caso, um didatismo postergado, que só vem no final do filme).
No filme, a criônica é levada a sério. Sua inserção no enredo dá-se sutilmente com a história de Benny, o cão: um cachorro que cai em um lago, é congelado, mas, depois de encontrado, acaba sobrevivendo. O diferencial de Vanilla Sky é a mistura de criônica com entertenimento, com a possibilidade de se viver uma vida de fantasias enquanto se está congelado (opção, claro, ainda distante dos planos atualmente disponíveis no mercado).

Para saber mais sobre a criônica: http://fabulosofuturo.blogspot.com/2010/11/e-possivel-contratar-alcor-life.html 

Para saber mais sobre a base científica da criônica: http://www.ted.com/talks/sebastian_seung.html

Para ver mais filmes ligados ao transhumanismo: http://www.yume.co.uk/tag/Transhumanism



David: Como é a opção Sonho Lúcido?
Atendente: Boa escolha. O Sonho Lúcido é a mais nova opção. Você paga um extra... e obtém uma combinação criogênica de ciência e divertimento.
Psicólogo: "Criotimento".
Atendente: Há quem ache útil essa apresentação.
Retrato da vida moderna. Americano, sexo masculino, nascimento e morte. Suponhamos que sofra de uma doença terminal. Você quer ser congelado e também ressuscitado... para continuar sua vida como ela é agora. A LE tem a resposta. Ao acordar, você continuará vivendo sem envelhecer, conservado... mas no presente e com o futuro de sua escolha. Sua morte será apagada da memória.
Sua vida continuará... como uma obra de arte realista de sua autoria.
Você viverá ao sabor de um dia de verão... como se a vida fosse um grande filme... ou uma canção de sua predileção. Você não se lembrará do que aconteceu, mas sentirá... que tudo simplesmente melhorou.
Caso venha a estar descontente, nosso técnico o visitará.
Tudo isso está a seu alcance. Em dois dias, começa um outro capítulo.
Uma vida de sonho é o que a Life Extension promete.
Uma vida de sonho.
Psicólogo: A morte da pessoa é apagada. Não estou lendo os jornais direito.
David: Um sonho. E se houver um erro? E se o sonho se tornar um pesadelo?
Atendente: É claro que o subconsciente pode pregar peças. Ele é muito poderoso.
Psicólogo: Você assinou um contrato com eles?
Atendente: Mas somos uma empresa séria. Vale a pena correr o risco. O que é a vida senão a busca da realização de sonhos? O sonho de paz, o sonho de realização... o sonho de ouvir alguém dizer... de todo o coração... Eu o amo, David. Eu o amo. Libere-se, David. A maioria das pessoas... nunca vivem uma aventura.
É difícil entender, mas não riram também de Júlio Verne?
É a revolução da mente.

sábado, 21 de agosto de 2010

Um Novo Iluminismo?



"Porque acho que podemos estar a 150 anos de algo como um novo iluminismo.


(..)
Primeiro, menos gente na mesma quantidade de terra faz com que o investimento em imóveis não seja uma boa aposta. Nas cidades, grande parte do custo dos imóveis é na verdade um valor especulativo. Sem especulação imobiliária, o preço da terra cai, e isso começa a diminuir o impacto na pobreza mundial.


Segundo, um declínio populacional significa mão-de-obra escassa. Falta de mão-de-obra causa aumento nos salários. Com salários maiores também diminui a carga sobre os pobres e os trabalhadores. Não falo de uma queda radical na população como aconteceu na Peste Negra. Mas veja o que aconteceu na Europa depois da Peste: aumento salarial, reforma agrária, inovação tecnológica, nascimento da classe media. E depois disso, movimentos sociais progressistas como a Renascença, e depois o Iluminismo.


A maior parte da nossa herança cultural tende a olhar para trás romantizando o passado. Todas religiões do ocidente começam com a idéia do Éden (Paraíso), passam por em um presente de libertinagem, e acabam em um futuro muito negativo. Vejam que a historia da humanidade é vista como um tipo de descida ladeira abaixo, partindo dos bons e velhos tempos.


Mas acredito que teremos outras mudanças cerca de duas gerações após o topo desta curva, assim que os efeitos do declínio populacional começarem a se estabelecer. Neste ponto, começaremos a romantizar o futuro novamente, no lugar do brutal e desagradável passado.
(...)
E temor pelo futuro leva a decisões precipitadas. Se tivermos uma visão positiva do futuro poderemos acelerar essa virada, ao invés de irmos para o precipício."


Comentários:
O horizonte temporal de Alcom parece-me equivocado. Se Kurzweil às vezes parece excessivamente precipitado ou ousado em suas previsões, Alcom vai pelo caminho oposto ao valar em "século XXII". Desconsidera o movimento acelerado das transformações, o caráter exponencial que essas mudanças realmente parecem ter. Assim como o mundo entre 1900-2000 mudou mais rapidamente que o século anterior (1800-1900), as mudanças de 2000 a 2100 provavelmente serão ainda mais radicais, provavelmente próximas das projeções de Kurzweil. Alcom ainda desconsidera o impacto que o desenvolvimento da inteligência artificial poderia ter enquato fator de poupança de mão de obra humana. Fora isso, sua ideia geral de que um mundo de mais abundância e menor carga de trabalho poderia se assemelhar, de alguma forma, ao Iluminismo do século XVIII é atraente.
Um mundo democrático comprometido com o progresso e generalização do bem-estar humano é bem mais interessante do que o cenário atual, ignorante, conflituoso em que a superpotência mundial (cujos presidentes para agradar ao leitor mediano dizem conversar com Deus) se mete em conflitos desastrados em busca de petróleo e não preza minimamente pelo respeito dos direitos humanos (Graig Murray que o diga). Vale a pena citar a bela passagem de Christopher Hitchens (cuja biografia é maculada pelo infortúnio de defender a Guerra do Iraque):

"Acima de tudo, estamos necessitados de um Iluminismo renovado, que se baseie na proposição de que o devido objeto de estudo da humanidade é o homem - e a mulher. Esse Iluminismo não precisará depender, como seus antecessores, das descobertas heróicas de algumas poucas pessoas bem-dotadas e excepcionalmente corajosas. Ele está ao alcance da pessoa comum. (...) A busca de investigações científicas ilimitadas e a disponibilidade de novas descobertas para multidões de pessoas por meios eletrônicos simples irão revolucionar nossos conceitos de pesquisa e desenvolvimento. (...) E tudo isso, e mais, está, pela primeira vez em nossa história, ao alcance ou nas mãos de todos."

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

No futuro haverá um novo tipo de religião baseada na engenharia?

Haverá no futuro um novo tipo de religião, baseada na  ciência e na engenharia? O que seria isso? (que, aliás, será o tema desse blog)


Marcelo Gleiser escreveu na Folha de S. Paulo: "Está na hora de irmos em frente e deixar para trás o desgastado embate entre a ciência e a religião, que já não rende nada. É preciso encontrarmos um novo rumo, ir além da polarização linear que vem caracterizando as discussões do papel da fé e da razão na vida das pessoas por mais de cem anos."

Gleiser propõe como saída a busca de valores universais, como a defesa da vida, mas o próprio cientista levanta o forte contra-argumento do relativismo cultural (para o fundamentalismo religioso, a vida pode não ter qualquer importância comparada ao além-vida). Alternativamente, há quem defenda algo bem mais radical ou inovador e que se aproxima, digamos, de um "tertium genus" entre religião e ciência.


EMBATE
O embate entre ciência e religião foi um corolário do Iluminismo (embora, como se sabe, os filósofos iluministas geralmente não tinham se dado conta disso e supunham com tranquilidade a existência de um Deus; o cisma, em um primeiro momento, era com  os abusos e safadezas da Igreja, não com Deus em si). Já no século XIX, o cenário do conflito Fé X Ciência parecia montado (destaque para Darwin) e, no decorrer no século XX, totalmente insuperável, com a ciência (talvez, principalmente, a biologia e a cosmologia) avançando e destronando a fé, que foi recuando, humilhada e  perigosamente ressentida.


Existiram, durante o século XX, alguns movimentos que tentaram reconciliar o aparentemente irreconciliável. Se para Freud a religião era algo pateticamente infantil, Jung tentou resgatar o status da fé e das manifestações místicas, capitalizando, para isso, seu grande prestígio intelectual. Mas não chegou a fazer um movimento.


Rhine tentou estudar, assegurando-se das garantias do rigor acadêmico, os fenômenos parapsicológicos e Stanislav Grof, os estados alterados da consciência (embora Grof tivesse ficado cada vez menos rigoroso, aparentemente perdendo sua credibilidade no meio científico). Em ambos os casos (bem como vários outros), tais pesquisas geraram expectativas, entusiasmos, mas os resultados foram dúbios ou irrelevantes. Nada que garantisse a certeza tranquilizadora, que tantos anseiam, da existência de espíritos e planos espirituais e -- claro, isso é o que importa -- o sossego  existencial diante da morte.


Houve ainda uma tentativa de se aproximar a ciência das ricas visões de mundo orientais. Foi o que Fritjof Capra (autor do famoso "O Tao da física") tentou empreender. Mas, para os mais exigentes, embora fosse um trabalho bonito, não era convincente o bastante e também não chegou a fazer um movimento ou alterar um paradigma.


Nesta primeira década do século XXI o desconforto da discórdia entre ciência e religião parece ter aumentado de intensidade -- talvez até porque o novo século foi marcado por um incidente (o 11 de setembro) que, de certa forma, parecia ter lançado um mundo de progresso tecnológico crescente em meio a uma cruzada na Idade Média, com mouros e cristãos se enfrentando por petróleo, fé e complexo de inferioridade. Radicais religiosos governam boa parte do mundo (e não só no mundo islâmico, nos EUA os presidentes frequentemente invocam Deus em seus argumentos). 

Para não assistirem passivamente o que consideram o risco do naufrágio da razão, ativistas ateus, tais como grande e influente biólogo Richard Dawkins e o jornalista Christopher Hitchens jogam lenha na fogueira da discórdia, disparando artilharia pesada sobre o que consideram ser a principal raiz dos males da sociedade: a religião (para moderar este ímpeto ateu, talvez seja prudente relembrar que a religião, o "ópio do povo", foi suprimida da URSS e outros países comunistas sem que, em virtude disso, tenha emergido ali um novo iluminiso ou luzes de qualquer natureza). Gosto muito de Dawkins, para mim uma espécie de Faraday ou Lavoisier vivo, mas a estratégia de tirar a religião e Deus das pessoas sem colocar nada no lugar me parece que jamais vai dar muito resultado.


CONCILIAÇÃO NO XXI
No meio desse fogo cruzado, não faltam os bem intencionados que tentam conciliar, de uma maneira meio barata (destinada ao consumo e conforto das massas), ciência e fé. É o caso Dan Brown e seus "Anjos e Demônios". Ou, ainda, do documentário "Quem somos nós?". Sobre este último, gostaria de dizer uma ou duas palavras.
Filmes como "Quem somos nós?" revelam um aspecto interessante sobre o nosso tempo: a credibilidade do saber científico de um lado e o vazio existencial e espiritual da ciência, de outro. O filme é montado de forma a reunir relatos e opiniões  (algumas, apenas) até respeitáveis de um ou outro cientista razoável (ao que me lembro) com outras (a maioria) ideias completamente esdrúxulas e pseudocientíficas que, é fácil perceber, usam e abusam do linguajar científico. O filme também apresenta uma postura muito mais confirmatória do que investigativa.
 
Essas pessoas, pois, se utilizam das fortes credenciais da ciência (a menção a universidades às vezes famosas, títulos acadêmicos,  o  linguajar acadêmico meio chato e recheado de palavras técnicas etc.) para tentar emprestar, por extensão, credibilidade a ideias sem qualquer comprovação científica (como a risível ideia de que o cristal de gelo formado em uma garrafa de água com o rótulo "Hitler" seria um cristal feio e sujo).

Tais explicações podem ser satisfatórias para leigos completos, mas, para aqueles que empregarem um mínimo trabalho de pesquisa, são insustentáveis. E o saldo disso é que tais tentativas de ligar ciência e religião não só não superam o fosso entre as duas como talvez o aprofundem em razão do sentimento de decepção que surge quando se toma consciência do embuste. (para quem quiser aprofundar os argumentos contra "Quem somos nós?" e "O Segredo", recomendo os textos: "A difícil condição humana - Por que o esoterismo pesudocientífico faz tanto sucesso?" e "Esoterismo Quântico", ambos de Gleiser)

UM NOVO TIPO DE RELIGIÃO

Pois bem. Existe alguma outra alternativa de conciliação entre ciência e religião? Por que, afinal de contas, tentar conciliar as duas coisas? Ao invés de desenganá-los, não seria melhor deixar os crentes viverem felizes com suas crenças (mas sem bombas)? Ou, do ponto de vista do crente: deixar esses cientistas malucos queimarem no fogo do inferno? (ok, o assunto é meio sério, mas me lembrei de um trecho deste videoclip)

Do ponto de vista científico, a religião não seria apenas um um corpo de mentiras fossilizadas habilmente utilizadas para explorar as pessoas? E, para os religiosos, a ciência não seria um índice da arrogância do homem, que quer brincar de deus?

Minha opinião é a de que, embora seja o melhor do que dispomos, a ciência é insuficiente para preencher o vazio e justificar a dor experimentada pela maioria das pessoas. A ciência, pelo menos entre as pessoas mais instruídas (Freud observou há mais de um século "...as camadas superiores da sociedade 'não mais acreditam em Deus'"), metodicamente erodiu os mitos e as crenças e, com isso, uma série de fundamentos que explicavam e justificavam a existência humana desde tempos primordiais, confortando e transmitindo segurança. 

Embora seja responsável por este vazio, a ciência não o preencheu com nada. Nem é sua finalidade fazê-lo (mas, se essa finalidade for da filosofia, ela também não fez um bom trabalho, a não ser para os filósofos acadêmicos). Mas e a arte, o sexo e o vício? 


Vivemos um momento histórico em que se proclamou o "fim da arte e da estética", declaração no mínimo controversa. Mas muito menos controversa é a percepção de que temos os sentidos embotados pela grande profusão de tendências e correntes artísticas, uma sucedendo a outra, cada uma trazendo já morta a promessa de redenção. Seguindo o caminho da especialização, a literatura, a música, a pintura, parece que tudo meio reduzido a guetos ou fã clubes, sem aquele apelo incontestável às multidões que uma obra de arte fazia no passado. Hoje, por mais desesperadamente experimental que uma tendência se mostre, ela é blasé. 
 
Já o vício e o sexo são poderosos instrumentos de atuação  direta no eixo dor-prazer. No entanto, seguir o caminho do vício é queimar a vela dos dois lados -- e ter que pagar uma conta alta no final. O sexo, a grande pilastra de nossas existências, poderia resolver nossos problemas se fôssemos ou nos tornássemos obongos. Acho que a vanguarda cultural na década de 1960 esperaria mais da moral e dos costumes em 2010. De qualquer forma, por mais forte que seja o instinto, o córtex humano talvez seja grande demais para se satisfazer apenas com ele.
Na falta de candidato melhor, é a crença no sobrenatural que se oferece a preencher esse vasto campo humano de expectativas, anseios, medos e necessidade de conforto: desde o fundamentalismo religioso para os fanáticos, passando pelo esoterismo tipo autoajuda de livraria de Shopping para a classe-média consumista até a atmosfera elegante, psicologicamente confortável e socialmente prestigiada de alguns seguimentos das religiões tradicionais (a imagem que me vem à mente é a do apresentador da BBC Robert Winston em uma sinagoga). 

Claro que, para quem tem estômago forete e não topa nenhuma das alternativas acima, o ateísmo oferece uma alternativa sóbria e racional:


"Nós [ateus] não nos baseamos unicamente na ciência e na razão, porque esses são fatores mais necessários que suficientes, mas desconfiamos de tudo o que contradiga a ciência ou afronte a razão. Podemos diferir em muitas coisas, mas respeitamos a livre investigação, a mente aberta e a busca do valor das idéias. Não sustentamos nossas convicções de forma dogmática: a divergência entre o professor Stephen Jay Gould e o professor Richard Dawkins acerca da "evolução pontual" e das lacunas na teoria pós-darwinista é bastante grande e igualmente profunda, mas iremos solucioná-la com base nas provas e no raciocínio, não por excomunhão mútua. (...) Não somos imunes à sedução do encanto, do mistério e do assombro: temos a música, a arte e a literatura, e achamos que os sérios dilemas éticos são mais bem abordados por Shakespeare, Tolstoi, Schiller, Dostoievski e George Eliot do que pelas histórias morais míticas dos livros sagrados. (...) Estamos resignados a viver apenas uma vez, a não ser por intermédio de nossos filhos, para os quais estamos muito felizes de perceber que devemos abrir caminho e ceder lugar. Nós especulamos que seria pelo menos possível que, assim que as pessoas aceitassem o fato de que suas vidas são curtas e duras, se comportassem melhor com os outros, e não pior. Acreditamos com grande dose de certeza que é possível levar uma vida ética sem religião." (Christopher Hitchens no livro "Deus não é grande").


O que parece difícil, no entanto, é estender a resignação de "viver apenas uma vez" e a crença de que é possível (para os não biólogos) acreditar que se atinge uma meia imortalidade "por intermédio de nossos filhos, para os quais estamos muito felizes de perceber que devemos abrir caminho e ceder lugar" (afinal, nossa individualidade não se confunde com nossos genes e se nem gêmeos idênticos são, evidentemente, a mesma pessoa, quanto menos nossos filhos, que tem 50% a menos de identidade genética e surgem em outra época).


E, aqui, finalmente chegamos ao assunto deste post inicial: existe alternativa para quem não quer seguir nenhum dos caminhos anteriores? É possível, conciliar, de um lado, a ciência como recurso de conhecimento e alteração do mundo, e, de outro, cultivar elementos positivos da religião, tais como a transcendência das limitações de um corpo biológico, a persistência de nossa consciência e identidade, a ideia de aprimoramento e evolução interior, a existência (ainda que futura) de planos ou seres de inteligência superiores à nossa?


E, a resposta, surpreendentemente parece ser positiva. De fato, um movimento recente, porém crescente e que começa a chamar a atenção da mídia internacional procura alcançar exatamente esses objetivos. De certa forma, é como se, para estas pessoas, as ideias religiosas e mágicas de todos os tempos, que refletem as mais profundas aspirações e desconfortos da "difícil condição humana" (principalmente a morte e a ideia de limitação, o hiato entre nossos sonhos e nossos condicionantes) são tão boas que merecem ser perseguidas e criadas pelo homem. 

É um movimento de pessoas que se recusam a endossar o sedativo que são as crenças religiosas. Mas, também, rejeitam a resignarem-se diante da dureza da condição humana (como pregam os ateus "estoicos" – “estoicos” para diferenciar, já que muitos deste movimento também são ateus ou agnósticos). Procuram, ao contrário, adaptar a dureza do mundo aos sonhos do homem e não os sonhos do homem à dureza do mundo. Aplicam-se a estas pessoas a definição de Jorge Luis Borges sobre a ficção científica de H. G. Wells: é a imaginação que aceita “o prodigioso, sempre que sua raiz fosse científica, não sobrenatural”.  


Cada tipo de personalidade pode se enquadrar melhor em um dos recursos existenciais acima esboçados. Alguém pode transacionar com sua própria consciência, aceitando os dogmas de uma religião tradicional para evitar o desconforto psicológico de ter que passar a limpo as grandes questões da existência (e, é claro, que um bom número nem chegará ao ponto da dúvida ou nem terá consciência desta transação). Outros, talvez mais abertos e sinceros, podem simplesmente viver a vida perfeitamente bem e tranquilos com a ideia de finitude e morte, racionalizando que o melhor caminho é a resignação. E outros, finalmente, podem considerar a solução dos ateus meio chata, pois, já que não há nada a perder, talvez fosse melhor (mais emocionante e criativo) fazer uma aventura para tentar transcender a própria condição humana e atingir um estado em que a morte pudesse ser efetivamente uma escolha e não uma fatalidade sobre a qual cabe ao homem resignar-se ou mentir a si próprio.


O movimento em questão é chamado transhumanismo ou singularitarianismo (as expressões não são exatamente sinônimas, mas são bem próximas e ligadas, a distinção fica para outro post). Para quem quiser inteirar-se das principais ideias e pontos de vista favoráveis ao movimento, recomendo as entrevistas abaixo de Raymond Kurzweil, o grande porta-voz do movimento (basta clicar para assistir):

Raymond Kurzweil faz uma análise sobre o futuro da humanidade

No futuro de homem Raymond Kurzweil e máquina serão um só


Termino, por fim, com um trecho de um artigo (intitulado "The First Church of Robotics" e é crítico, aliás) sobre o assunto, publicado no New York Times:


"cientistas da computação [...] são humanos, e são tão apavorados com a condição humana como qualquer um. Nós, a elite técnica, procuramos alguma maneira de pensar que nos dá uma resposta à morte, por exemplo. Isso ajuda a explicar o fascínio de um lugar como a Singularity University. [...]
Todos esses pensamentos sobre consciência e almas estão ligados igualmente à fé, o que sugere algo notável: o que estamos vendo é uma nova religião, expressa através de uma cultura de engenharia."


Com a ressalva de que, a meu ver, não se trata de uma nova religião, mas de um novo tipo de coisa que surge da mistura de religião nos fins e ciência/engenharia nos meios, é este o tema e o ponto de vista que este blog explorará. E o nome Fabuloso Futuro justifica-se, pois, por todas as acepções que o dicionário Houaiss traz do adjetivo fabuloso:


"adj. (1532) 1 que concerne ao legendário, às narrativas criadas pela imaginação <os personagens f. dos irmãos Grimm> 2 que tem características de fábula <os contos algo f. de Murilo Rubião> 3 que se reporta à mitologia <mitos e heróis f.> 4 que se refere a tempos recuados em que história e lenda se confundem <o mundo f. do classicismo greco-romano> 5 que (por suas dimensões) ultrapassa a imaginação <as f. distâncias interestelares> 6 p.metf. que, sendo real, parece imaginário <palácio de suntuosidade f.> 7 p.ext. que tem caráter admirável; incrível <acontecimentos f.> 8 que não é bem conhecido; indistinto, obscuro <dizem que por lá vive um homem com poderes f.> 9 B que é tido como ótimo; excelente, fantástico <comprou um carro f.> "


Como é próprio dos blogs, mais do que primar por um objetivismo jornalístico ou acadêmico, os posts aqui estarão encharcados de opiniões pessoais, como se fossem relatos de uma viagem pessoal, durante a qual, espera-se, encontrar companhia.
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